Mau olhado
O Diário - 18 de fevereiro de 2025

PROFª ESP. KARLA ARMANI MEDEIROS, historiadora, professora de História e titular da cadeira 7 da ABC – www.karlaarmani.blogspot.com / @profkarlaarmani
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Se o escritor Lima Barreto nunca pisou em Barretos, ao menos sei que ele sabia da existência da nossa cidade, já que havia lido um livro sobre ela. Sei disso porque acabo de ler o romance “Mau olhado”, publicado pelo escritor João Pedro da Veiga Miranda, em 1919; obra que foi objeto de crítica literária do célebre Lima Barreto. Um primor!
Em resumo, a obra utiliza de um romance subentendido entre uma jovem madrasta e seu enteado padre para expor e mergulhar na vida roceira de fazendeiros, forasteiros, escravos, ciganos, agregados e mulheres na fazenda Boa Esperança, situada no vale dos rios Grande e Pardo; isto é, na imensidão do território de Barretos. O romance, temporalizado na segunda metade do século XIX, elenca como paisagens e temas as matas virgens do território paulista, a saudade mineira, a miscigenação e a complexidade social das personagens, as práticas e crenças pagãs fundidas aos dogmas católicos, a roda econômica girada pelos moinhos artesanais de cana-de-açúcar, as relações familiares construídas pela coerção social e, principalmente, o fanatismo e o misticismo edificados à base do isolamento, violência, subjugação, mandonismo e pela falta de leis e estruturas.
Para quem conhece a história de Barretos, seus distritos e região, a obra é um deleite. A pena leve do autor não revela cenários e sentimentos literais, ele os sugere, pulveriza; quase sussurra. Convida o leitor a imaginar, se instigar e indignar-se (como foi o meu caso com o desfecho final). Personagens como o místico Lelé e bandoleiros como Dente de Ouro naturalmente nos levam a pensar em Francisco Miotti, o dito “profeta” de Barretos, e assassinos que por aqui passaram como Severianinho, Manoel Cuiabano e outros. O autor dá vida ao “arraial dos Barretos” ao citar seus espaços de circulação como a estrada real, o cemitério, a capela, a delegacia, seus distritos e o primitivo comércio.
Veiga Miranda, que além de escritor foi prefeito de Ribeirão Preto e deputado federal, conhecia bem Barretos. Ele tinha concessão da estrada que ligava Colina a Orlândia, era amigo de Emílio José Pinto e autor de texto sobre a colônia Estiva. Osório Rocha também conhecia sua obra, mas o que me espanta é saber que ela atravessou mais de um século sem ser esmiuçada pelos barretenses. Portanto, trago-a de volta! Leiam.