Sobre a mentalidade: demora, mas muda
O Diário - 25 de março de 2025

PROFª ESP. KARLA ARMANI MEDEIROS, historiadora, professora de História e titular da cadeira 7 da ABC – www.karlaarmani.blogspot.com / @profkarlaarmani
Compartilhar
Era 1932, dezembro, o debate no Brasil era a respeito do direito das mulheres ao voto, e os jornais de Barretos não fugiam à discussão. Como advogado e jornalista, Osório Rocha, intelectual que muito admiro, escrevia sobre a sua preocupação quanto à nova carta constitucional ofertar às mulheres esse direito, pois, segundo ele, o ambiente da política era sujo e arredio, não contemplando a delicadeza e a sacralidade feminina. Ele, assim como outros juristas da época, associava a concessão do voto feminino ao desmanche da família brasileira e da moral. Um pensamento da década de 1930; óbvio. É muito fácil para mim, mulher do século XXI, discordar dele. Ocorre que é preciso contextualizar a época e as palavras do autor para evitar anacronismo e juízos de valores. Suas palavras apenas refletiam a mentalidade de uma época, onde a maioria se enraizava nas tradições e era arredia a qualquer mudança de padrões. Na história da humanidade, a mentalidade é a que mais tempo demora para se mutar no comportamento humano, por isso encaixa-se na “longa duração”. Ocorre que, mesmo diante dessa visão da maioria, já existia um movimento de vanguarda para dotar as mulheres de seus direitos civis, tanto que a nova Constituição de 1934 oficializou o voto feminino. O ar se renovou.
Em todas as épocas, sempre há quem pensa diferente e ouve as novas gerações. Se não fosse assim, até hoje as mulheres não teriam direito ao voto, à emancipação, ao divórcio e outras conquistas. Diante disso, não consigo deixar de ficar perplexa quando no tempo de agora ainda ouço expressões e comentários de pessoas que parecem ter ficado lá na década de 1930; sem sequer ter nascido nela. São diversos exemplos, mas escolho o clássico: “por trás de um grande homem, há sempre uma grande mulher”. Não entendo o motivo de homens, geralmente mais velhos, ainda reproduzirem essa frase tão arcaica para justificarem seus feitos. Ela não combina com o mundo de hoje, não é elogio, não justifica pensamento nenhum e nem cobre a masculinidade, ao contrário, a encaixa em um passado já ultrapassado e morto. Nem mesmo as mulheres conservadoras aceitam ouvi-la. É necessário oxigenar-se, ouvir os ecos das novas gerações e mudar a mentalidade. Fica aqui a reflexão e o convite a quem ainda insiste em viver em 1930.